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segunda-feira, 11 de junho de 2012

ESPECIAL: CONTO "A REVOLTADA"

Gosto muito de escrever e tenho vários cadernos cheios de rabiscos, que incluem contos, crônicas, histórias infanto-juvenis e até romances ainda inacabados. Como esse blog é também sobre literatura, resolvi publicar um dos contos que escrevi para você lerem. Estou pensando em criar uma seção de contos e crônicas no blog.

Escrevi o conto "A Revoltada" há pouco tempo. Conta a história de uma empregada que, cansada de se sujeitar às humilhações da patroa malvada, resolve se rebelar e dar o troco a fim de ser demitida e receber seus salários atrasados. Vocês vão perceber que minha maneira de narrar nesse conto é bastante coloquial, como se eu estivesse contando a história falando diretamente com o leitor. Na maioria de meus contos, evito dar nomes aos personagens, pois me interesso mais pela história e não ligo muito para o nome que eles podem ter. Também faço comentários meios ácidos, na maioria das vezes no intuito de trazer humor ao texto e procuro fazer sempre que possível uma pequena crítica social sobre algum assunto, no caso deste conto, a relação entre patroas e empregadas, que atualmente também está sendo abordada com muito êxito na novela "Cheias de Charme". Vocês verão que todos os elementos que mencionei acima estão presentes nesse conto. Leiam e espero que gostem.





A Revoltada
      Conto de  Leandro Brasil

Ela já estava cansada. Cansada de tudo. Não sabia o que fazer para sair daquela situação, mas sabia que tinha de fazer alguma coisa.

Depois de pensar muito ela teve uma ideia e chegou decidida na casa da patroa, que a recebeu com o costumeiro creme de pepino no rosto, um creme que em vez de melhorar sua aparência, a deixava ainda mais parecida com uma bruxa. Estava muito, muito mal-humorada.

- Que atraso é esse? – perguntou a patroa inchando de raiva, se empertigando toda – Não sabe que preciso de você cedinho aqui em casa?

- Sei! – respondeu ela usando toda a insolência que conseguiu reunir na voz – Mas hoje eu resolvi dormir até mais tarde e por isso me atrasei um pouquinho.

A patroa a olhou com um brilho vermelho nos olhos enormes. Parecia querer fulminá-la com o olhar de peixe morto, a cara empapuçada tremendo de raiva, acentuando horrivelmente suas muitas rugas de expressão. Mas ela pareceu pensar muito antes de responder, pois demorou um pouco olhando para a empregada e disse finalmente, em tom seco, mas conciliatório:

- Bem, todos tem problemas, inclusive os empregados – a patroa resolveu fingir que não tinha ouvido a grosseria da empregada, pois dependia dela querendo ou não – Mas por favor, da próxima vez que for se atrasar, me avise com antecedência para eu...

- Se eu lembrar eu aviso – respondeu a outra dando as costas para a patroa e dirigindo-se à cozinha para vestir seu uniforme.

Dessa vez a patroa não podia fingir ignorar que a empregada estava lhe desafiando. Ela dirigiu-se à cozinha o mais rápido que suas pernas curtas, grossas e cheias de varizes lhe permitiram e perguntou gritando e mandando às favas o tom educado que tinha usado até ali:

- Escute aqui, sua sujeita! Resolveu bancar a rebelde agora, é? O que deu em você pra me desafiar dessa maneira? Onde está a sua educação?

- No mesmo lugar onde a senhora sempre guardou a sua: embaixo do tapete! – respondeu a empregada sarcasticamente.




A patroa a olhou como se quisesse estrangulá-la, mas parou, indecisa. Ficou observando  a empregada, que não teve medo de encará-la. Analisou a serviçal como se quisesse ler seus pensamentos para descobrir o que ela estava tramando. Depois de um tempo, um sorriso cruel desenhou-se na boca enorme da patroa, fazendo sua dentadura frouxa saltar levemente (Como a empregada desejou que a dentadura caísse da boca  dela para soltar uma sonora gargalhada!).

- Já sei o que você está pretendendo, querida! – disse a mulher com o ar triunfante de quem acabava de chegar a uma conclusão genial – Você está querendo me desafiar para ver se eu a demito e te pago todos os seus salários atrasados, mais o tempo de serviço. – e vendo um sorriso no rosto da empregada, continuou, ainda mais feliz: - Acertei, não é? Pois saiba que eu não vou fazer isso, meu amor. Você é uma péssima serviçal, mas eu preciso dos seus préstimos, mesmo que você faça o serviço mal e porcamente. Querida, deixe de ser tão revoltada! Não é segredo para ninguém que minhas finanças não andam muito bem, mas eu prometo que assim que a situação melhorar, o que eu espero que seja em breve, você receberá todos os atrasados e mais uma bonificação. Mas se você continuar se comportando assim, além de botá-la no olho da rua por justa causa, eu providenciarei para que você não consiga emprego nem na casa da mãe Joana, ouviu bem, baby?

A mulher deu uma risadinha histérica e infantil e olhou mais uma vez para a empregada a fim de verificar o efeito que suas palavras haviam produzido, mas em vez de susto, viu um sorriso  cínico no rosto da outra, e ficou ainda mais enfurecida.

- Posso saber do que é que você está rindo? – perguntou ela mais furiosa do que nunca, pegando um pano de prato sujo que estava na mesa e passando violentamente no cara flácida para tirar o creme de pepino.

- Primeiro, estou muito surpresa de ver a senhora chegar a essa conclusão, pois não pensei que tivesse o hábito de pensar – a empregada viu os lábios da patroa tremerem de raiva, o buço que mais parecia um bigode, acentuando-se ainda mais no rosto vermelho não só de raiva, mas também por causa da violência usada por ela ao passar o pano de prato – e segundo porque acho muita ingenuidade mesmo por parte de uma ameba como a senhora, pensar que essa situação é provisória. Meu bem, as coisas não vão voltar a ser como eram. Luxo mesmo só no tempo em que o seu marido vivia aqui, porque ele bancava todos os seus gastos, mas depois que ele te largou por aquela mocinha de vinte e poucos anos (e eu não culpo o coitado por querer se livrar de uma megera como a senhora), as coisas vão de mal a pior e a senhora só não morreu de fome ainda por causa da generosidade do seu filho engenheiro, que manda uma pequena merreca todo mês.

A empregada sabia que esse era um assunto proibido naquela casa. A patroa não suportava ouvir falar no marido que a abandonara por outra mais jovem e mais bonita,  deixando-a responsável por todas as despesas do lar. Ela tinha um ódio mortal de quem se atrevesse a tocar no nome do ex-marido e a empregada chegou mesmo a pensar que tinha ido longe demais e temeu que ela tivesse um troço ali mesmo e caísse no chão estrebuchando. Mas por incrível que pareça, a patroa estava com um ar sereno e falou em um tom de voz muito calmo:

- Eu sei que você quer me irritar, querida, mas não vai conseguir, pois hoje eu estou de excelente humor, senão eu já teria pulado nesse teu pescoço de garça e torceria ele até não restar mais nada desse sorrisinho irritante, meu bem. Agora faça o favor de começar logo a trabalhar e leve o meu café da manhã diet no quarto. E não demore!

Mas a empregada ainda não dissera tudo:

- Não sei por que a senhora gasta tanto com essas comidas diets, pois está cada dia mais gorda. E esses cremes caríssimos  só servem pra te deixar melecada, porque para melhorar essa sua cara feia, só mesmo um milagre, colega!

A patroa deu um grunhido selvagem e só faltou soltar fumaça pelas orelhas de tanta raiva. Ela balançou os braços ridiculamente no ar, como se quisesse acertar qualquer um que aparecesse na sua frente, mas não disse nada e saiu da cozinha rebolando o traseiro enorme, enquanto a empregada se espremia para conter as gargalhadas.

Assim que a patroa saiu a empregada ligou o rádio da cozinha em volume máximo porque sabia que isso a irritaria ainda mais. Ela começou a preparar o café muito devagar, com preguiça mesmo, e demorou uma hora a mais do que demorava todos os dias para levar ao quarto dela. Encontrou a mulher dormindo, de barriga para cima, a boca aberta escorrendo baba. Ela acordou bruscamente com a entrada da empregada no quarto e começou a comer um pedaço de pão integral resmungando cada vez mais mal humorada. A empregada recolheu um monte de roupa  para passar e dirigiu-se à porta do quarto, não sem antes bater de propósito em um jarro de porcelana que estava em cima da mesinha de cabeceira. O jarro caiu no chão espatifando-se, enquanto a patroa fazia uma careta de dor por ver seu amado jarro destruído.

- Desastrada! – disse ela espumando. – Só não desconto do seu salário porque...

- Porque eu não recebo mais salário há meses? – perguntou a empregada em tom desafiante.

- Chega! Eu não aguento mais ouvir a sua voz, desgraçada! Passe essa roupa e cuide muito bem do meu vestido novo de seda azul, pois pretendo sair à noite para...

- Para caçar homem? Desiste, amor, ninguém te quer!

- SAIA DAQUI AGORA!!!!!!!

A empregada saiu do quarto rindo alto. Se soubesse que desafiar a patroa era tão divertido já teria feito isso há muito tempo. Não aguentava mais ser humilhada todos os dias por ela e ainda por cima trabalhar sem receber salário. Não iria mais se sujeitar à tirania dela de jeito nenhum! Atormentaria a patroa até que ela a demitisse e desse um jeito de pagar todos os seus salários atrasados, pois estava atolada de dívidas e queria encontrar emprego na casa de uma patroa generosa que soubesse valorizar os serviços de uma empregada boa como ela.

Levou as roupas para a cozinha e enquanto as passava, aproveitou para fazer também o almoço, tomando o cuidado de “errar” e colocar o triplo de sal necessário no arroz. Dez minutos depois de começar a passar as roupas de qualquer jeito, fazendo um rasguinho aqui, descosturando um vestido ali, a patroa apareceu e mandou preparar rápido o bolo de chocolate preferido de uma amiga sua que vinha lhe fazer uma visita dali a pouco. Furiosa, a empregada largou o ferro de passar em cima do vestido azul de seda da patroa e começou a preparar o bolo, esquecendo é claro, de botar açúcar e ligando o forno em uma temperatura altíssima, pois queria que o bolo queimasse e ficasse duro como uma pedra. Enquanto preparava o bolo, sentiu com grande alegria o cheiro do tecido do vestido sendo queimado pelo ferro. Até estranhou que a patroa não aparecesse ali reclamando do cheiro de queimado, mas na mesma hora escutou sua voz grossa e masculina cantando uma música horrível do tempo em que usar brilhantina nos cabelos era moda, e teve certeza de que ela estava no banho se preparando para receber sua amiga de maneira bem exibicionista, para deixar claro que o abandono do marido não a derrubara e que estava mais feliz do que nunca.


Bozena (Alessandra Maestrini) do "Toma Lá Dá Cá" é uma das empregadas mais famosas da ficção.


- Traga o meu vestido novo agora, estrupício! – o berro da patroa fez a empregada ter certeza de que estava certa quanto ao fato de ela querer se exibir.

Ela tirou o ferro de cima do vestido e com grande satisfação, viu uma enorme mancha preta de queimado na parte de trás da roupa. Saiu correndo da cozinha e fez questão de ajudar a mulher a se vestir. Teve que se esforçar muito para não rir ao ver o vestido queimado no traseiro da patroa, mas a mulher não percebeu nada. A empregada desceu para a cozinha e continuou passando as roupas com a cara mais inocente do mundo. Pouco tempo depois ouviu os passos de elefante da patroa descendo as escadas e indo para a sala de jantar esperar a amiga, que era uma mulher alta, magra e mais feia ainda do que ela. A doméstica não conseguia entender como uma mulher tão pavorosa arranjara um casamento com um milionário, que só podia ser o homem mais míope do mundo para não enxergar o bagulho que tinha em casa.

- Venha atender a porta, sua tonta! Não ouviu a campainha, ficou surda?

A empregada foi correndo atender a porta, enquanto arrumava os cabelos desgrenhados. A amiga da patroa passou por ela como se não a visse, o queixo levantado e o pescoço de girafa tão duro que parecia estar com torcicolo.

- Oh, my dear, há quanto tempo! – disse a patroa com voz melosa, abraçando a mulher esquelética.

- Nem me fale, darling, faz tanto tempo que não encontro uma brecha na agenda para visitá-la. É que sempre aparece uma viagem aqui e ali e você sabe como eu amo viajar, baby. Cheguei de Milão anteontem.

- Eu também não paro de viajar, querida – disse a gorducha mentindo descaradamente – Voltei de Paris semana passada. Acredita que ainda não tive tempo de desarrumar todas as malas? Tá vendo esse vestido? Novíssimo, comprei lá. – E girou mostrando o vestido. A amiga corou horrorizada ao ver a enorme queimadura no tecido, mas fez de conta que não viu nada.

A empregada riu muito enquanto as duas iam para a sala de estar. Riu também da capacidade admirável da patroa de contar as mentiras mais deslavadas como se fossem verdadeiras. Fazia anos que ela não viajava nem para cidadezinhas do interior e também estava mentindo sobre o vestido, que não era novo coisa nenhuma, pois ela o comprara de segunda mão em um bazar.

Enquanto as duas amigas enchiam a cara de um vinho muito ordinário que a patroa dissera ter trazido de Paris, mas que tinha sido comprado no botequim da esquina, a empregada voltou à cozinha, onde dobrou muito mal dobradas as roupas que tinha passado, amassando todas novamente. Depois, ela botou feijão para cozinhar na panela de pressão, enquanto ouvia a conversa irritante das duas peruas na sala. Elas falavam alto e cochichavam de vez em quando, entre risinhos abafados e gargalhadas estridentes que as faziam parecer duas galinhas cacarejando.

 Achando que já tinha trabalhado demais naquele dia, a empregada tirou o uniforme, deu um jeito nos cabelos, passou um pouco de desodorante que trazia na bolsa e foi para a sala agindo mais naturalmente do que nunca, deixando as duas mulheres surpreendidas com sua atitude.

- Aonde você vai? – perguntou a patroa branca de susto, como se quisesse sumir dali de tanta vergonha.

- Vou dar uma saidinha, bater um pouquinho de perna, olhar as vitrines...

A amiga da patroa tapou a boca indignada com o que estava vendo.

- Querida, como você deixa a empregada agir assim com tanta insolência? – perguntou ela chocada.

- Hoje essa infeliz tirou o dia para me desafiar, amiga. – disse a patroa muito envergonhada. E virando-se para a empregada: - Volte para a cozinha agora se não quiser ir para o olho da rua!

- Tô com vontade não, colega! – disse a doméstica sorrindo ironicamente – Vou dar uma andadinha por aí e se der, eu volto ainda hoje. O arroz já está pronto, tem carne na geladeira, é só a senhora esquentar. Ah, não esqueça de tirar o bolo que ainda está no forno e de dar uma olhadinha no feijão que está cozinhando. – Ela dirigiu-se sorrateiramente à porta, sob os olhares estupefatos das duas mulheres e disse antes de sair para a rua batendo a porta com estrépito: - Divirtam-se, amores!

Na rua, a empregada ouviu os gritos das duas mulheres, a amiga da patroa dizendo em voz alta que ela não podia permitir que “aquela empregadinha” a desafiasse e que tinha que tomar uma providência, pois aquilo não podia ficar assim, ao que a patroa respondeu que daria um jeito na empregada assim que ela voltasse da rua.

Depois de algum tempo andando sem destino e parando aqui e ali para olhar a vitrine de alguma loja ou tomar um sorvete numa lanchonete, a empregada decidiu que era hora de voltar para a casa da patroa e descobrir que tipo de providência ela tomaria.

De longe percebeu que algo não estava normal em casa, pois ouviu antes de entrar, gritos de alguém apavorado, que parecia estar em grandes dificuldades cuidando de alguma coisa. A cena que a empregada viu ao chegar à cozinha foi deplorável e mesmo sem querer, ela sentiu um pouco de pena da patroa, pois a mulher estava abrindo o forno naquele momento e gritava ao ver que o bolo estava pegando fogo. A empregada correu, abriu a torneira rapidamente, pegou um pouco d´água e jogou no forno para apagar o fogo, atingindo também a cara da mulher, que estava lívida de susto. Toda molhada, ela olhou com ódio para a empregada e mostrou o bolo queimado, totalmente preto e duro como cimento. Olhando ao redor a empregada viu que as paredes da cozinha estavam sujas de um caldo escuro e havia feijão por todos os lados. A patroa apontou para o alto, mostrando que havia feijão também no  teto. A visão da panela de pressão amassada e de sua tampa no chão, deu à empregada a certeza de que houvera uma explosão.

Sem saber o que dizer, a empregada olhou para a patroa, que estava desolada, parecendo muito exausta e com lágrimas nos olhos.

- Você conseguiu, queridinha! – disse ela vencida – Eu vou subir, vou me arrumar e nós duas vamos sair. Vamos até a casa de uma grande amiga minha, a quem eu vou pedir um dinheiro emprestado para pagar todos os seus salários atrasados e os seus direitos trabalhistas. Não aguento mais olhar pra essa tua cara azeda! Hoje mesmo você cai fora daqui!




Ela saiu da cozinha e voltou menos de dez minutos depois, usando um vestido vermelho parecido com um balão, de tão grande e folgado. Fez um gesto para a empregada apontando a saída para a rua onde seu carro velho estava estacionado em frente à casa. A mulher entrou no carro, que pendeu um pouco do lado esquerdo por causa do enorme peso dela, e mandou a empregada entrar e sentar ao seu lado. Ela obedeceu e em pouco tempo, o carro estacionava em frente a um prédio de luxo onde sua amiga morava, no centro da cidade. A patroa desceu e foi até a portaria.

- Me espere aqui! – disse secamente para a empregada, que ainda não conseguia acreditar que estava finalmente se livrando daquela patroa horrível e recebendo todo o dinheiro a que tinha direito. Foi muito mais fácil do que ela imaginava!

Esperando cada vez mais ansiosa a volta da patroa, que estava demorando muito, a empregada começou a roer as unhas de tão nervosa. Depois de um tempo excessivamente longo para ela, a patroa saiu do prédio, muito séria. Lançou um olhar carregado de raiva e desprezo para a empregada e disse quase gritando:

- Aqui está o dinheiro de todos os seus salários atrasados, sua imbecil. – Mostrou um bolo de notas novas que fez a empregada ficar tonta de tanta felicidade – Pegue essa porcaria de dinheiro e faça o favor de nunca mais aparecer na minha frente, ouviu bem?

- Pode deixar, madame! – disse a empregada toda feliz estendendo a mão para pegar o dinheiro.

- Acorda, dorminhoca!

A voz da mãe a despertou de seu lindo sonho. Ela acordou sobressaltada e furiosa por perceber que tudo aquilo tinha sido um sonho. Por que tinha que ser sonho, por quê? Ela estava tão feliz, tão feliz por se vingar da patroa que a humilhava, por sair finalmente daquele emprego miserável e receber seus salários atrasados... Por quê?

Como ela gostaria de ter a coragem que havia demonstrado no sonho, de fazer tudo aquilo e muito mais, de fazer tudo o que tinha vontade há tanto tempo! Mas ela sabia que não podia agir daquele jeito, pois corria o risco até de ir parar  na cadeia. Ela já tinha experiência suficiente para saber que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. A patroa podia ser péssima, uma verdadeira bruaca, mas ela precisava do emprego. Quem sabe um dia ela receberia seus salários atrasados e poderia finalmente dar com os pés nas ventas daquela mulher horrível? “Um dia, quem sabe”, pensou ela com tristeza. Mas enquanto não chegava esse tão sonhado dia, ela teria que se sujeitar às humilhações da baranga, porque se pedisse as contas agora, iria para a rua sem receber nada, pois a patroa faria o possível para não pagá-la e talvez até ficasse feliz de a ver pelas costas e ter uma desculpa para não pagar nada a ela. Teria que entrar na justiça se quisesse receber alguma coisa, mas isso iria longe e ela não estava com a menor disposição para se sujeitar aos trâmites lentos e burocráticos da justiça. Tinha que continuar no emprego engolindo desaforos.

Levantou-se mal humorada e começou a se vestir quase chorando. Como a realidade podia ser tão cruel?

Chegou atrasada na casa da patroa, que a recebeu com o mesmo creme de pepino que usava todos os dias no rosto, mas a empregada sabia que a cena que viria a seguir seria totalmente diferente do que acontecera no seu maravilhoso sonho:

- Ah, apareceu a margarida! – reclamou a patroa com sua voz de trovão – É a segunda vez essa semana que você chega atrasada! Não acha que está abusando demais, baby? Deve ter passado a noite em alguma balada enchendo a cara com aquela água que passarinho não bebe, não é? Cuidado, minha querida, para de ser tão festeira, porque você pode acabar se dando mal. Já imaginou se você se depara com algum bandido perigoso e no dia seguinte amanhece desovada em algum beco mal cheiroso com a boca cheia de formiga? Cuidado, meu bem, quem avisa amigo é. Sua sorte é que eu sou uma excelente patroa e faço vista grossa às tuas danações, mas que isso não se repita ou eu te demito por justa causa e você sai daqui com uma mão na frente e outra atrás, entendeu?

- Sim senhora. – respondeu a empregada resignadamente.

- E agora vá preparar o meu café da manhã diet e não demore para levar no meu quarto, ouviu?

- Sim senhora.

Muito triste e pensando que alegria de pobre dura pouco até nos sonhos, a empregada foi de cabeça baixa para a cozinha preparar o café diet da patroa.



Autor: Leandro Brasil






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