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quarta-feira, 22 de maio de 2013

ENTREVISTA - AGUINALDO SILVA: "TENHO MUITAS HISTÓRIAS INÉDITAS PARA CONTAR"


Escritor, jornalista, considerado por unanimidade um dos maiores autores de novelas do Brasil, campeão de audiência, sem papas na língua, polêmico: todos esses adjetivos costumam ser usados para definir Aguinaldo Silva, o entrevistado de hoje do blog. Aguinaldo é o único autor brasileiro que só escreveu novelas das oito (hoje das nove). São dele novelas clássicas como "Roque Santeiro" (1985), "Vale Tudo" (1988), "Tieta" (1989), "A Indomada" (1997) e "Senhora do Destino" (2004), só para citar algumas. Aguinaldo Silva trabalhou durante anos como jornalista antes de entrar para o mundo da televisão, que segundo ele, nunca foi seu objetivo. Em 1979 escreveu "Plantão de Polícia", um dos primeiros seriados da Globo e em 1981, inaugurou o gênero minissérie com "Lampião e Maria Bonita". Depois disso não parou mais e escreveu um sucesso atrás do outro, entre novelas, minisséries, seriados, livros e roteiros de cinema. Atualmente Aguinaldo está desenvolvendo a sinopse de sua próxima novela, além de estar envolvido com muitos outros projetos. Com uma disposição de causar inveja, Aguinaldo está sempre trabalhando e não consegue ficar parado. Apesar de muito ocupado, ele topou gentilmente dar essa entrevista para o "Super TV e Mais!", realizando um antigo desejo meu e dos leitores do blog. Nesse pequeno bate-papo, ele relembra alguns sucessos de sua carreira e fala um pouco de seus próximos projetos, entre muitas outras coisas. Aproveitem!

SUPER TV E MAIS! - Você já deve ter falado muito sobre isso, mas não tem como deixar de te pedir: conte um pouco da sua trajetória desde a época em que trabalhava como jornalista até chegar à televisão.

AGUINALDO SILVA - Antes de ser jornalista eu já era escritor. Aos 16 trabalhava como datilógrafo num cartório no Recife quando publiquei meu primeiro livro, "Redenção para Job". Por causa  dele é que fui parar no jornalismo, a convite de Samuel Wainer, para trabalhar na Última Hora do Nordeste. Depois vim para o Rio onde, em O Globo, me especializei em assuntos policiais. Isso me levou à televisão - que nunca foi meu objetivo - para escrever o seriado "Plantão de Polícia". Daí passei para as minisséries, e afinal me chamaram para escrever uma novela das oito - outra coisa que jamais fez parte de minhas aspirações.


Capa do livro "Redenção para Job" e foto do seriado "Plantão de Polícia" (1979)

SUPER TV E MAIS! - A primeira minissérie da Globo, "Lampião e Maria Bonita" (1982) foi escrita por você e Doc Comparato. Depois seguiram-se outros títulos de muito sucesso. Qual delas é a sua preferida? Pretende escrever mais minisséries?

AGUINALDO SILVA - "Lampião e Maria Bonita" foi um marco, e talvez seja até hoje a melhor minissérie brasileira. "Bandidos da Falange", que eu também escrevi, levou a linguagem inaugurada por "Lampião e Maria Bonita" ainda mais além. Mas esta não foi a trilha adotada pelo gênero. Com poucas exceções - "Hilda Furacão", "A Muralha" - a minissérie no Brasil virou um veículo de biografias autorizadas, que deviam ser desautorizadas. "JK" é o exemplo mais flagrante disso. Esta linguagem, digamos assim, "oficial" adotada pelas minisséries tornou o gênero desinteressante, e acho que por isso ele quase não é mais praticado. Minha minissérie preferida dentre as que escrevi? "Tenda dos Milagres".


Minisséries "Lampião e Maria Bonita" (1982), "Bandidos da Falange" (1983) e " Tenda dos Milagres" (1985)

SUPER TV E MAIS! - "Roque Santeiro" (1985), que você escreveu com Dias Gomes, é uma das novelas mais importantes e emblemáticas da TV brasileira. Havia o projeto de "Roque" virar filme e você até publicou o roteiro em seu site. Por que o filme não saiu do papel?

AGUINALDO SILVA - Porque o cinema é assim. Dezenas de projetos parecem criar vida, mas de repente murcham e morrem. No caso de "Roque Santeiro - o filme", até hoje não entendi porquê ele murchou e morreu. Parece que houve desavenças entre produtores, diretores, sei lá. Eu pulei fora do projeto quando decidiram que Roque Santeiro seria negro. Percebi que isso mudava inteiramente a história - não há santos negros no Brasil além de São Benedito que, aliás, é muito desprestigiado.


"Roque Santeiro" (1985): a novela de maior audiência da história da TV brasileira

SUPER TV E MAIS! - Duas de suas novelas, "Roque Santeiro" e "Tieta" (1989) foram lançadas em DVD. "Roque Santeiro" também foi reprisada no Canal Viva, assim como "Vale Tudo" (1988). Você reviu as novelas em DVD e no Viva? Gosta de assistir as reprises de suas tramas?

AGUINALDO SILVA - É sempre interessante ver que minhas novelas são capazes de sobreviver à sequência de novelas que foram ao ar depois delas. É gratificante saber que personagens criados por mim há mais de trinta anos são até hoje lembradas. Gosto quando uma novela minha é reprisada, mas não vejo nenhuma. Para mim, minha novela é sempre a próxima, a que ainda não foi escrita, a que está germinando dentro da minha cabeça. Quanto às outras, cumpri minha missão em relação a elas quando acabei de escrevê-las.


Novelas "Partido Alto" (1984), "O Outro" (1987) e "Vale Tudo" (1988)

SUPER TV E MAIS! - A partir de Tieta, você escreveu uma série de novelas regionalistas ambientadas no Nordeste e cheias de realismo mágico. Todas elas foram grandes sucessos. Você pensa em voltar a escrever novelas assim? Acha que o realismo mágico continua atraindo o telespectador?

AGUINALDO SILVA - Esta é a pergunta de um milhão de dólares... E eu a respondo com uma pergunta: "Avenida Brasil" era o quê? Uma novela realista, naturalista, ou uma versão gótica e hiper estilizada do real? Não seria ela mais aparentada com "Game of Thrones" do que com "Pecado Capital"? Acho que a melhor parte do sucesso de "Avenida Brasil" foi o que ela tinha de absurdo, de exacerbado, de quase realismo mágico. Ou seja, respondendo à sua pergunta: não sei se voltaria a escrever aquelas novelas nordestinas nas quais as vacas voavam, mas acho sim - basta ver a saga "Crepúsculo" - que o realismo mágico, mesmo o "mauricinho", continua atraindo o telespectador.




"Pedra Sobre Pedra" (1992), "Fera Ferida" (1993) e "A Indomada": Três grandes sucessos

SUPER TV E MAIS! - Você já declarou algumas vezes que considera "Tieta" sua melhor novela (eu a assisti inteira em DVD e adorei). Mesmo dizendo que é um autor de novelas inéditas e que ainda tem muitas histórias para contar, você toparia escrever um remake de "Tieta" ou de outra novela sua se fosse convidado?

AGUINALDO SILVA - Não. Clássicos não podem ser refeitos, e "Tieta" é um clássico. Não é por acaso que Hollywood jamais fará remakes de "E o Vento Levou" (1939), "Casablanca" (1942) e outros que tais. São momentos únicos, que não podem se repetir senão como farsa, ou pastiche. O remake é sempre menor e em geral indigno do original. Acima de tudo, eu não faria remakes de coisa nenhuma, porque tenho muitas histórias inéditas para contar.


Aguinaldo já declarou que considera "Tieta" (1989) sua melhor novela

SUPER TV E MAIS! - Você é o único autor brasileiro que só escreveu novelas das oito. A maioria delas está na lista das maiores audiências da Globo. Nunca teve vontade de se aventurar em outros horários também?

AGUINALDO SILVA - Comecei no horário das oito (que agora é das nove) e vou terminar no horário das oito. Fiz minisséries e seriados, que são gêneros diferentes, mas novela para mim, só se for das oito. Alguém dirá que isso é arrogância minha, mas um pouco de arrogância não faz mal a ninguém.

SUPER TV E MAIS! - Você é sempre chamado para supervisionar novelas de outros autores. Uma delas, "Laços de Sangue" (2010) ganhou o Emmy de melhor novela. Como é o trabalho de supervisão de uma trama? Você fica chateado se por acaso o autor não aceita suas sugestões?

AGUINALDO SILVA - O supervisor é um conversador. Alguém que tenta passar sua experiência profissional para outro menos experiente. É um trabalho difícil, porque o autor inexperiente sempre acha que vai revolucionar, mudar o gênero, e cabe ao supervisor dizer a ele - com muito cuidado - que revolucionar, mudar o gênero, significa estragá-lo e produzir mais um fracasso de audiência. Em "Laços de Sangue" o trabalho fluiu porque nós - eu, o autor, seus colaboradores - viramos uma equipe. Já em "Tempos Modernos" (2010) aconteceu o contrário. Agora estou supervisionando a novela de Rui Vilhena, e o trabalho flui maravilhosamente.


"Laços de Sangue" (2010) e "Tempos Modernos" (2010): novelas que contaram com a supervisão de Aguinaldo Silva

SUPER TV E MAIS! - Esse ano estreia no Canal Telemundo uma versão hispânica de "Fina Estampa" (2011). Como foi o seu envolvimento com essa nova versão? Pretende acompanhar a novela?

AGUINALDO SILVA - Tive reuniões com os roteiristas e produtores de "Marido de Alquiler" em Miami. Foi muito prazeroso, principalmente porque o tempo inteiro havia uma limusine com motorista à minha disposição. Discutimos algumas mudanças, que reconheci serem necessárias à adaptação, mas evitei dar maiores pitacos, pois acho que, embora a história seja a mesma, falada em espanhol e ambientada em Miami a  novela virou outra. Não vou acompanhar, mas quero ver pelo menos alguns capítulos para ver como ficou.


"Fina Estampa" (2011) e "Marido de Alquiler" (2013), versão latina da novela

SUPER TV E MAIS! - Já li seu livro "98 Tiros de Audiência" duas vezes e acho a história perfeita para uma adaptação. Você nunca pensou em adaptar o livro para teatro, cinema ou televisão?

AGUINALDO SILVA - Num mundo ideal "98 Tiros de Audiência" daria uma minissérie. Não sei se seria capaz de escrevê-la (já que sou autor do livro, acabaria competindo comigo mesmo, o que é péssimo). E menos ainda sei se alguma emissora de televisão teria coragem de produzi-la, já que o livro retrata os bastidores de uma novela e, portanto, de uma emissora de tevê, de modo bastante fiel, mas nem sempre positivo.


Capas de duas edições do romance "98 Tiros de Audiência"

SUPER TV E MAIS! - E por falar em livros, você tem planos de lançar algum novo romance em breve?

AGUINALDO SILVA - Estou trabalhando há anos num romance cujo personagem principal é João do Rio, figura mitológica da vida carioca nos primeiros trinta anos do século XX... E, ao mesmo tempo, numa continuação de "98 Tiros de Audiência", que começa quando, por conta de uma firula jurídica, é anulado o julgamento de Everardo Lopez (o autor da novela acusado da matar a estrela), ele sai da cadeia e aí... Lá vamos nós para os bastidores da televisão de novo!


"Suave Veneno" (1999) e "Porto dos Milagres" (2001)

SUPER TV E MAIS! - Atualmente você está envolvido com vários projetos e ainda administra o seu site e seu restaurante Locanda Della Mimosa, além de marcar presença constantemente no Twitter. Como consegue conciliar tudo isso?

AGUINALDO SILVA - Você esqueceu o facebook! São três, o meu, o da Locanda e a fan page. Sou um trabalhador compulsivo, não sei fazer outra coisa além de preencher meu dia com trabalho e mais trabalho. Mas reconheço que isso está me matando.


A campeã de audiência "Senhora do Destino" (2004)

SUPER TV E MAIS! - Não existe fórmula para o sucesso, mas na sua opinião o que não pode faltar numa boa telenovela?

AGUINALDO SILVA - Uma trama realmente original. Se você prestar atenção nas novelas vai perceber que a maioria delas é descartável. Ninguém perderia nada se não fossem produzidas. O público vê essas novelas, mas só pela força do hábito. Só de vez em quando aparece uma que realmente mobiliza os telespectadores, e isto sempre acontece por causa da trama original.


Marjorie Estiano foi a protagonista de "Duas Caras" (2007), outro sucesso de Aguinaldo

SUPER TV E MAIS! - Você é um dos autores que mais se preocupa em dar oportunidades para novos roteiristas: já fez duas Master Class, lançou o DVD "A Arte de Escrever Novela" e promoveu um concurso nacional de roteiros. Pretende continuar investindo nisso? Pensa em por exemplo, dar um curso de roteiro pela internet?

AGUINALDO SILVA - Já me foi oferecida esta oportunidade: seria para até mil alunos, imagine, completamente impessoal. Fiquei assustado. Recusei. Gosto de ter meus alunos diante de mim, gosto de praticar com eles o saudável exercício do olho no olho. Uma terceira master class? Farei depois da minha próxima novela, que deve estrear em julho do próximo ano. E também farei o II Concurso Nacional de Roteiros à mesma época. Adoro pescar talentos dentre as centenas de candidatos que me aparecem, acho importante passar para eles tudo que aprendi sobre roteiro de televisão - e ainda estou aprendendo.


Capa do DVD "A Arte de Escrever Novela", uma aula de roteiro com Aguinaldo Silva

SUPER TV E MAIS! - No momento você se divide entre "Super Crô - O Filme", o seriado "Doctor Pri" e a sinopse de sua próxima novela. O que você pode adiantar sobre cada um deles? Quando estreiam?

AGUINALDO SILVA - A novela está prevista para julho de 2014. "Crô - o Filme" estréia em setembro (vi ontem um DVD com as cenas editadas: vai ser um estouro!). Quanto a "Doctor Pri", é como dizia Lara Romero em "Cinquentinha": "quem viver me verá!"



- Clique aqui para ler um post sobre "Tieta";

- Clique aqui para ler um post sobre o livro "98 Tiros de Audiência";

- Clique aqui para ler um post sobre novelas com realismo mágico, a maioria delas, de Aguinaldo Silva.



sábado, 11 de maio de 2013

A AUTORA RELEMBRA: ENTREVISTA COM CRISTIANE FRIDMAN


A convidada de hoje da sessão "O Autor Relembra" é a autora Cristiane Fridman. Com uma capacidade incrível para criar histórias que prendem a atenção do público, Cristiane começou sua carreira ao participar da oficina de roteiristas da Globo na década de 1980. Depois disso não parou mais e passou por emissoras como SBT e Globo (onde foi colaboradora em algumas novelas). Na Record, Cristiane virou autora titular e escreveu as bem sucedidas novelas "Bicho do Mato" (2006), "Chamas da Vida" (2008) e "Vidas em Jogo" (2011). Todas elas foram grandes sucessos e a fizeram ser reconhecida como uma autora de muito talento. 

Aqui no blog ela responde algumas perguntas sobre sua carreira, relembra seus principais trabalhos na TV e ainda fala um pouco sobre sua próxima novela, com previsão de estreia no ano que vem. Saiba um pouco mais sobre a carreira de Cristiane Fridman:

SUPER TV E MAIS! -  Como surgiu a sua vontade de escrever para a televisão? Fale um pouco de sua trajetória até conseguir realizar seu sonho:

CRISTIANE FRIDMAN - Sempre gostei de assistir televisão e a vontade de escrever surgiu quando vi um anúncio no jornal abrindo concurso para Oficina de Roteiristas da TV Globo. Comprei um livro sobre roteiros de TV, escrevi o meu e mandei. Fui selecionada, participei da Oficina e não mais parei desde então. Isto foi em 1985, acho eu, (risos).

DEPOIMENTOS

Dona Anja (1997)



"Foi minha primeira experiência em telenovela. Trabalhei com a Yoya Wursch e o Talma e aprendi muito com ambos."

Malhação (2001)


"Fiquei bastante tempo em 'Malhação', não somente em 2001, e fiz amigos, além de ter aprendido a trabalhar em equipe e a desenvolver tramas semanais bem instigantes."

Coração de Estudante (2002)


"Colaborei com o Emanuel Jacobina e foi a realização de um sonho ter escrito para um elenco maravilhoso que contava, entre outros, com a Adriana Esteves fazendo a Amelinha."

Essas Mulheres (2005)


"Foi a primeira vez que escrevi uma novela de época e confesso que espero ter sido a última, (risos). Muito, muito difícil escrever os diálogos com uma linguagem mais elaborada e passando as emoções dos personagens e da trama."

Bicho do Mato (2006)


"Assinei com o Bosco Brasil e a supervisão do Tiago Santiago. Com 'Bicho do Mato' me tornei autora titular e foi a maior tremedeira e, também, um grande prazer conduzir como cabeça uma trama de novela."

Chamas da Vida (2008)


"Um carinho imenso por esta novela. 'Chamas' foi o meu primeiro trabalho autoral. Foi uma novela divertida e emocionante. Fui muito feliz escrevendo 'Chamas'."

Vidas em Jogo (2011)


"Meu trabalho mais recente e uma tentativa de apresentar uma estrutura diferente. Trabalhei com dez protagonistas: a turma do bolão. Foi uma novela bem interessante, um desafio."



SUPER TV E MAIS! - Que dicas você daria para quem sonha ingressar nessa mesma carreira de roteirista de cinema e televisão?

CRISTIANE FRIDMAN - Ler muito, ir ao cinema, assistir televisão e escrever, escrever, escrever!

SUPER TV E MAIS - Você já sabe quando estreia sua próxima novela na Record? Não pode adiantar nada ainda sobre a nova trama?

CRISTIANE FRIDMAN - Estou programada para entrar ano que vem, após a novela do Lombardi. O nome da minha novela é "Vitória", mas não posso adiantar a trama porque ainda falta tempo para entrar e ainda estou escrevendo a sinopse.




quinta-feira, 18 de abril de 2013

A AUTORA RELEMBRA: SOLANGE CASTRO NEVES


Hoje na Sessão "O Autor Relembra" (no caso, a autora), vamos conhecer um pouco mais sobre a carreira de Solange Castro Neves. Principal colaboradora da grande Ivani Ribeiro, a quem ela considera sua grande mestra, Solange também trabalhou como pesquisadora de texto e além das novelas de Ivani, fez parte da equipe dos grandes sucessos "Brega & Chique" (1987) e "Que Rei Sou Eu?" (1989), de Cassiano Gabus Mendes. Na Globo seus maiores sucessos são "Mulheres de Areia" (1993) e "A Viagem" (1994, como coautora). Na Record, Solange assinou o grande sucesso "Marcas da Paixão" (2000) e "Roda da Vida" (2001). Solange Castro Neves é uma autora bastante versátil, que não tem medo de mergulhar nas emoções. Além das novelas, ela também escreveu roteiros de cinema, peças de teatro, livros e ministra cursos de roteiros.

Confiram os depoimentos da autora sobre seus trabalhos na TV e saiba o que ela está fazendo atualmente:


Final Feliz (1982)


"Esta novela me deu muitas alegrias. Era a minha primeira vez trabalhando lado a lado com a Ivani, a minha grande mestra. Estava encantada, a trama era maravilhosa, os atores excepcionais. Um fato me marcou muito nesta novela. Já fazia seis meses que estávamos trabalhando. A casa dela era um sobrado, e como todas as tardes, estava escrevendo em sua antiga máquina Olivetti, enquanto ela estava recebendo uma visita do seu guru, Alex. Um homem a quem ela brincava dizendo que era o seu bruxo, e lhe protegia de todas as energias não qualificadas da vida. Envolvida com os diálogos, escutei sua voz me chamando. Desci as escadas e no meio dos degraus me deparei com uma figura de um homem de olhos bem verdes, me olhando profundamente. Para encurtar a história, ele disse em alto e bom tom que eu era uma pessoa confiável, ingênua, sonhadora, que amava meu trabalho e assim foi me descrevendo como se já me conhecesse há muito tempo. A minha reação foi a pior possível, não conseguia controlar as lágrimas enquanto tentava engolir o choro. A vontade que eu tinha era pegar minhas coisas e ir embora e já ia voltando para trás quando ele, em outro tom de voz me explicou que a Ivani era uma mulher pública e que por isso muitas pessoas se aproximavam dela para tirar vantagem, e que ela já havia sofrido muitas decepções no decorrer da sua vida. Ela me abraçou, me beijou emocionada e me chamou de filha."

Amor com Amor se Paga (1984)


"Antes de começar a novela, Ivani me pediu para que eu fizesse um curso de câmera, para que eu pudesse ter noção de direcionar as cenas da maneira correta para facilitar ao diretor a gravação e também para que me desse a certeza de que a mensagem principal da cena fosse transmitida claramente. A Ivani tinha uma carpintaria, ou melhor dizendo, a técnica de escrever, com muitas rubricas. Assim, fiz o curso com a cineasta Ana Carolina e me surpreendi com a complexidade de uma filmagem."

Brega & Chique (1987)


"Através do Paulo Ubiratan, conheci Cassiano e lhe mostrei uma pequena sinopse sobre a vida de uma amiga minha que era muito rica, seu marido tinha um alto cargo em uma multinacional, e de repente, por motivos alheios à sua vontade, ele perde tudo e tem suas contas confiscadas. Ela então, decide cozinhar e vender marmitas. Contei essa história para ele que gostou da trama e assim nasceu 'Brega & Chique'. Assim Cassiano me deu a oportunidade de trabalhar ao seu lado e aprender, no convívio do dia a dia, a desenvolver uma tragicomédia, onde a ironia sadia nos diálogos inteligentes e irônicos, sobressaíam atraindo e encantando o público das 19 horas. Outro fato engraçado foi o Cassinho que fez o Bruno, filho do Barnabé, personagem do Denis Carvalho. Eu, sempre tive problemas com dicção, trocava o L pelo R. Assim, me diverti muito com o Bruno que tinha essas mesmas características."

Que Rei Sou Eu? (1989)


"'Que Rei Sou Eu?' foi a primeira novela de época que trabalhei. Eu que não gostava de política, aprendi a ler quatro jornais por dia e adentrar num jogo de arco e flecha. As flechas eram lançadas através dos diálogos e direcionadas aos políticos atuais, falando de suas falcatruas, de maneira tal que eles não tinham como se pronunciar contra a novela, apesar do público saber de quem a gente estava falando. Outro fato muito interessante foi através do ator Stenio Garcia, que sempre admirei muito através das novelas da Ivani com quem trabalhava, e por causa do seu potencial artísticos, conversando com o Cassiano, em vez dele ser apenas um dos três mosqueteiros, iríamos transformá-lo no bobo da corte. A atuação dele foi hilária, marcante. Quase todos os dias eu recebia o telefonema do Carlinhos, o maquiador da Globo, reclamando do trabalhão que eu dava ao mandar em microfilmes para ele, a caracterização do personagem em muitas cenas atípicas. Quando ele ganhou o prêmio de melhor maquiador, ele ofereceu o prêmio a mim."

O Sexo dos Anjos (1989) 


"Houve um fator infeliz nesta novela porque a Ivani que era extremamente romântica e Roberto Talma, a quem eu admiro e tenho muito carinho, um diretor com uma visão modernista, acabaram batendo de frente e eu sem querer fiquei no meio deste embate, com a difícil tarefa de escolher um substituto que estivesse na equipe do Roberto. Como conhecia apenas o desempenho do Fabio Sabag, que trabalhou em 'Que Rei Sou Eu?', sabia que ele corresponderia às nossas expectativas. Indiquei-o sem titubear, causando um certo constrangimento nos outros dois. Foi uma situação extremamente desagradável mas hoje sei que o meu querido Roberto entendeu minha posição."

Mulheres de Areia (1993)


"Aprendi com a minha mestra quase tudo que sei e juntas unimos duas novelas em uma só. 'Mulheres de Areia' e 'O Espantalho' e criamos assim uma terceira. Posso dizer, de cátedra, que uma adaptação é muito mais difícil do que trabalhar com a original porque não é fácil a comparação que o telespectador tem da antiga com a nova, e também com o passar do tempo, as tramas tem que ter uma roupagem diferente. Vou dar um exemplo: a Rutinha feita magistralmente pela Eva Wilma, na primeira versão, era uma jovem virgem, ingênua, sofredora, e na segunda, como dizia Ivani, “a  sua Rutinha” era uma jovem que havia se decepcionado com o seu primeiro amor e perdido um filho que carregava no ventre. O Tonho da Lua, feito por Marcos Frota, também tinha características que o primeiro não teve, devido ao fato de eu já ter trabalhado com crianças especiais e portanto não achava justo, para estas, que Tonho ficasse curado quando a realidade era bem diferente. Assim ele continuou sendo uma criança grande que amou eternamente a sua Rutinha."

A Viagem (1994) 


"Foi uma experiência enriquecedora em todos os sentidos. Foi a primeira novela que assinei como coautora, pois nas outras fui colaboradora e antes pesquisadora de texto. Na verdade, pesquisador de texto não é apenas aquele que faz pesquisas e catalografa os personagens ou resumos da história. Ele também escreve cenas só que antes havia uma hierarquia. A pessoa passava anos como pesquisador de texto, depois colaborador, depois como coautor e depois de toda esta vivência é que ele se intitularia autor de sua própria obra."

Quem é Você? (1996) 


"Foi uma novela que tinha tudo para dar certo, mas que infelizmente saiu do trilho, não deu certo. Deixou um gostinho de quero mais. É nos erros que aprendemos a seguir em frente e acertar o passo."

Marcas da Paixão (2000) 


"Foi uma experiência gratificante porque tinha acabado de sair da Globo onde havia uma mega estrutura por trás, ao contrário da Record, que estava dando os primeiros passos. Os percalços tornavam mais difícil o meu trabalho. Em contrapartida, tive de aprender a criar dentro das possibilidades da nova casa, o que expandiu o meu campo de trabalho. O mais importante é que a novela deu certo, atingiu índices maiores do que o esperado."

Roda da Vida (2001) 


"A sinopse de 'Roda da Vida' é minha mas não escrevi a novela, saí para fazer um outro trabalho quando tive de parar por causa de doença grave em família. Na verdade, para não dizer que parei com tudo, comecei a ministrar cursos de roteiro para cinema e TV. Logo depois, quando fiquei viúva, fui fazer pós graduação na FAAP para cinema e TV."

Os novos projetos da autora:

"Fiz dois roteiros de longa metragem e tenho duas sinopses de novela que estão sendo avaliadas. Enquanto isto estou escrevendo uma peça de teatro e ministrando cursos pelo Brasil afora."



quarta-feira, 3 de abril de 2013

O AUTOR RELEMBRA - JÚLIO FISCHER


Hoje estreia uma nova seção no blog, "O Autor Relembra". Como o próprio nome diz, é uma seção onde os autores de novelas relembram seus principais trabalhos na telinha, em pequenos depoimentos contando como foi a experiência de participar de cada um desses trabalhos, que fazem parte da história da televisão e da memória afetiva do público, além, é claro, de ter marcado a vida e trajetória profissional de seus autores.

Na estreia da seção, temos o talentoso autor Júlio Fischer. Ele fez parte da equipe de vários programas da Globo, como "Sítio do Picapau Amarelo" (2002) e "Brava Gente" (2001) e trabalhou como colaborador em novelas de sucesso como "Era Uma Vez..." (1998), "O Profeta" (2006) e "Cama de Gato" (2009), além de ter escrito peças de teatro de sucesso, como "Isaurinha Garcia" e "Personalíssima". Atualmente Júlio faz parte da equipe da ótima novela "Flor do Caribe" e também está no ar com a reprise de "O Profeta". Apesar da correria, ele topou gentilmente relembrar seus principais trabalhos na TV. Confiram os depoimentos de Júlio Fischer:

1 - Era uma vez (1998)


"A primeira novela de que participei como colaborador, de autoria do Walther Negrão, com quem tenho a felicidade de trabalhar até hoje. Uma novela bonita, que deixou saudades."


2 - Vila Madalena (1999)


"Novamente sob a batuta do Negrão, a novela teve alguns percalços de audiência, o que não afetou em nada o entusiasmo da equipe, que tinha também Paulo Cursino, Elizabeth Jhin, Ângela Carneiro e uma novata que estreava como colaboradora, Thelma Guedes, hoje autora-titular consagrada."


3 - Brava Gente - A Sonata (2002)


"Adaptação que escrevi, ainda na oficina de roteiristas (com supervisão do mestre Flávio de Campos) de um conto de Érico Veríssimo. Foi lindamente dirigida pelo Jayme Monjardim e a Teresa Lampreia, e contou ainda com uma sonata composta especialmente para o programa por Marcus Viana. No elenco primoroso tínhamos Mariana Ximenes, Ângelo Antonio, Tato Gabus Mendes, Susana Vieira, Nair Bello... Ficou tão bonito que foi lançado em DVD."

Clique aqui para assistir "A Sonata" no You Tube.

4 - Coração de Estudante (2002)


"Uma novela bonita, deliciosa, com um elenco bárbaro e que caiu no gosto do espectador."


5 - Sítio do Picapau Amarelo (2002)


"O 'Sítio' ocupa um lugar especial no meu coração. Mergulhar no universo de Monteiro Lobato foi uma aventura rica, divertida e de uma tremenda responsabilidade, dada a envergadura da obra de Monteiro Lobato e sua importância na formação cultural do nosso país."

6 - O Profeta (2006)


"Um marco, pois foi o primeiro trabalho de minhas queridas amigas Duca Rachid e Thelma Guedes como autoras titulares, numa adaptação livre da trama de Ivani Ribeiro (que foi inteiramente recriada, na verdade). Uma história emocionante, que tratava de valores como ética e a responsabilidade pelos nossos atos, tudo embalado numa linda história de amor." 


7 - Eterna Magia (2007)



"Uma ousadia da autora Elizabeth Jhin, que misturou magia com um enredo folhetinesco no qual ela deu provas de sua grande capacidade inventiva. Um trabalho que foi muito prazeroso." 


8 - Desejo Proibido (2007)



"Uma das novelas de que mais gostei de participar. Tinha uma história linda, personagens inesquecíveis e uma reconstituição de época impecável. Afora a oportunidade de escrever para atores do calibre de Eva Wilma, Lima Duarte, Nívea Maria, Claudio Marzo e tantas outras feras! Grazi Massafera (nossa heroína em 'Flor do Caribe' fazia um papel hilário, a casadora Florinda, e deu um show em seu segundo trabalho como atriz.)"


9 - Cama de Gato (2009)



"Um sucesso de Thelma Guedes e Duca Rachid, uma história palpitante, cheia de reviravoltas, e cuja protagonista era um personagem inesquecível, a faxineira Rose, vivida espetacularmente pela não menos espetacular Camila Pitanga."


10 - Araguaia (2010)



"Com visual deslumbrante, a novela, do Walther Negrão, conseguiu o feito de misturar lendas indígenas, guerrilha do Araguaia, circo e, claro, muito romance e emoção. O esforço valeu e a novela concorreu ao Emmy internacional como melhor telenovela."


11 - Cordel Encantado (2011)



"Duca e Thelma criaram uma das novelas mais lindas e geniais já feitas até hoje, e conseguiram o feito de criar um produto sofisticadíssimo do ponto de vista cultural  e estético e, ao mesmo tempo, de ampla comunicação popular (atestado pelos altos índices alcançados pela trama.)"


12 - Flor do Caribe (2013)



"Novamente sob a batuta do mestre Negrão, a novela tem sido, para todos nós, autores, uma oportunidade para darmos o melhor de nós com o propósito de criar uma boa história. Se vamos conseguir? Só o tempo dirá..."