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quarta-feira, 22 de maio de 2013

ENTREVISTA - AGUINALDO SILVA: "TENHO MUITAS HISTÓRIAS INÉDITAS PARA CONTAR"


Escritor, jornalista, considerado por unanimidade um dos maiores autores de novelas do Brasil, campeão de audiência, sem papas na língua, polêmico: todos esses adjetivos costumam ser usados para definir Aguinaldo Silva, o entrevistado de hoje do blog. Aguinaldo é o único autor brasileiro que só escreveu novelas das oito (hoje das nove). São dele novelas clássicas como "Roque Santeiro" (1985), "Vale Tudo" (1988), "Tieta" (1989), "A Indomada" (1997) e "Senhora do Destino" (2004), só para citar algumas. Aguinaldo Silva trabalhou durante anos como jornalista antes de entrar para o mundo da televisão, que segundo ele, nunca foi seu objetivo. Em 1979 escreveu "Plantão de Polícia", um dos primeiros seriados da Globo e em 1981, inaugurou o gênero minissérie com "Lampião e Maria Bonita". Depois disso não parou mais e escreveu um sucesso atrás do outro, entre novelas, minisséries, seriados, livros e roteiros de cinema. Atualmente Aguinaldo está desenvolvendo a sinopse de sua próxima novela, além de estar envolvido com muitos outros projetos. Com uma disposição de causar inveja, Aguinaldo está sempre trabalhando e não consegue ficar parado. Apesar de muito ocupado, ele topou gentilmente dar essa entrevista para o "Super TV e Mais!", realizando um antigo desejo meu e dos leitores do blog. Nesse pequeno bate-papo, ele relembra alguns sucessos de sua carreira e fala um pouco de seus próximos projetos, entre muitas outras coisas. Aproveitem!

SUPER TV E MAIS! - Você já deve ter falado muito sobre isso, mas não tem como deixar de te pedir: conte um pouco da sua trajetória desde a época em que trabalhava como jornalista até chegar à televisão.

AGUINALDO SILVA - Antes de ser jornalista eu já era escritor. Aos 16 trabalhava como datilógrafo num cartório no Recife quando publiquei meu primeiro livro, "Redenção para Job". Por causa  dele é que fui parar no jornalismo, a convite de Samuel Wainer, para trabalhar na Última Hora do Nordeste. Depois vim para o Rio onde, em O Globo, me especializei em assuntos policiais. Isso me levou à televisão - que nunca foi meu objetivo - para escrever o seriado "Plantão de Polícia". Daí passei para as minisséries, e afinal me chamaram para escrever uma novela das oito - outra coisa que jamais fez parte de minhas aspirações.


Capa do livro "Redenção para Job" e foto do seriado "Plantão de Polícia" (1979)

SUPER TV E MAIS! - A primeira minissérie da Globo, "Lampião e Maria Bonita" (1982) foi escrita por você e Doc Comparato. Depois seguiram-se outros títulos de muito sucesso. Qual delas é a sua preferida? Pretende escrever mais minisséries?

AGUINALDO SILVA - "Lampião e Maria Bonita" foi um marco, e talvez seja até hoje a melhor minissérie brasileira. "Bandidos da Falange", que eu também escrevi, levou a linguagem inaugurada por "Lampião e Maria Bonita" ainda mais além. Mas esta não foi a trilha adotada pelo gênero. Com poucas exceções - "Hilda Furacão", "A Muralha" - a minissérie no Brasil virou um veículo de biografias autorizadas, que deviam ser desautorizadas. "JK" é o exemplo mais flagrante disso. Esta linguagem, digamos assim, "oficial" adotada pelas minisséries tornou o gênero desinteressante, e acho que por isso ele quase não é mais praticado. Minha minissérie preferida dentre as que escrevi? "Tenda dos Milagres".


Minisséries "Lampião e Maria Bonita" (1982), "Bandidos da Falange" (1983) e " Tenda dos Milagres" (1985)

SUPER TV E MAIS! - "Roque Santeiro" (1985), que você escreveu com Dias Gomes, é uma das novelas mais importantes e emblemáticas da TV brasileira. Havia o projeto de "Roque" virar filme e você até publicou o roteiro em seu site. Por que o filme não saiu do papel?

AGUINALDO SILVA - Porque o cinema é assim. Dezenas de projetos parecem criar vida, mas de repente murcham e morrem. No caso de "Roque Santeiro - o filme", até hoje não entendi porquê ele murchou e morreu. Parece que houve desavenças entre produtores, diretores, sei lá. Eu pulei fora do projeto quando decidiram que Roque Santeiro seria negro. Percebi que isso mudava inteiramente a história - não há santos negros no Brasil além de São Benedito que, aliás, é muito desprestigiado.


"Roque Santeiro" (1985): a novela de maior audiência da história da TV brasileira

SUPER TV E MAIS! - Duas de suas novelas, "Roque Santeiro" e "Tieta" (1989) foram lançadas em DVD. "Roque Santeiro" também foi reprisada no Canal Viva, assim como "Vale Tudo" (1988). Você reviu as novelas em DVD e no Viva? Gosta de assistir as reprises de suas tramas?

AGUINALDO SILVA - É sempre interessante ver que minhas novelas são capazes de sobreviver à sequência de novelas que foram ao ar depois delas. É gratificante saber que personagens criados por mim há mais de trinta anos são até hoje lembradas. Gosto quando uma novela minha é reprisada, mas não vejo nenhuma. Para mim, minha novela é sempre a próxima, a que ainda não foi escrita, a que está germinando dentro da minha cabeça. Quanto às outras, cumpri minha missão em relação a elas quando acabei de escrevê-las.


Novelas "Partido Alto" (1984), "O Outro" (1987) e "Vale Tudo" (1988)

SUPER TV E MAIS! - A partir de Tieta, você escreveu uma série de novelas regionalistas ambientadas no Nordeste e cheias de realismo mágico. Todas elas foram grandes sucessos. Você pensa em voltar a escrever novelas assim? Acha que o realismo mágico continua atraindo o telespectador?

AGUINALDO SILVA - Esta é a pergunta de um milhão de dólares... E eu a respondo com uma pergunta: "Avenida Brasil" era o quê? Uma novela realista, naturalista, ou uma versão gótica e hiper estilizada do real? Não seria ela mais aparentada com "Game of Thrones" do que com "Pecado Capital"? Acho que a melhor parte do sucesso de "Avenida Brasil" foi o que ela tinha de absurdo, de exacerbado, de quase realismo mágico. Ou seja, respondendo à sua pergunta: não sei se voltaria a escrever aquelas novelas nordestinas nas quais as vacas voavam, mas acho sim - basta ver a saga "Crepúsculo" - que o realismo mágico, mesmo o "mauricinho", continua atraindo o telespectador.




"Pedra Sobre Pedra" (1992), "Fera Ferida" (1993) e "A Indomada": Três grandes sucessos

SUPER TV E MAIS! - Você já declarou algumas vezes que considera "Tieta" sua melhor novela (eu a assisti inteira em DVD e adorei). Mesmo dizendo que é um autor de novelas inéditas e que ainda tem muitas histórias para contar, você toparia escrever um remake de "Tieta" ou de outra novela sua se fosse convidado?

AGUINALDO SILVA - Não. Clássicos não podem ser refeitos, e "Tieta" é um clássico. Não é por acaso que Hollywood jamais fará remakes de "E o Vento Levou" (1939), "Casablanca" (1942) e outros que tais. São momentos únicos, que não podem se repetir senão como farsa, ou pastiche. O remake é sempre menor e em geral indigno do original. Acima de tudo, eu não faria remakes de coisa nenhuma, porque tenho muitas histórias inéditas para contar.


Aguinaldo já declarou que considera "Tieta" (1989) sua melhor novela

SUPER TV E MAIS! - Você é o único autor brasileiro que só escreveu novelas das oito. A maioria delas está na lista das maiores audiências da Globo. Nunca teve vontade de se aventurar em outros horários também?

AGUINALDO SILVA - Comecei no horário das oito (que agora é das nove) e vou terminar no horário das oito. Fiz minisséries e seriados, que são gêneros diferentes, mas novela para mim, só se for das oito. Alguém dirá que isso é arrogância minha, mas um pouco de arrogância não faz mal a ninguém.

SUPER TV E MAIS! - Você é sempre chamado para supervisionar novelas de outros autores. Uma delas, "Laços de Sangue" (2010) ganhou o Emmy de melhor novela. Como é o trabalho de supervisão de uma trama? Você fica chateado se por acaso o autor não aceita suas sugestões?

AGUINALDO SILVA - O supervisor é um conversador. Alguém que tenta passar sua experiência profissional para outro menos experiente. É um trabalho difícil, porque o autor inexperiente sempre acha que vai revolucionar, mudar o gênero, e cabe ao supervisor dizer a ele - com muito cuidado - que revolucionar, mudar o gênero, significa estragá-lo e produzir mais um fracasso de audiência. Em "Laços de Sangue" o trabalho fluiu porque nós - eu, o autor, seus colaboradores - viramos uma equipe. Já em "Tempos Modernos" (2010) aconteceu o contrário. Agora estou supervisionando a novela de Rui Vilhena, e o trabalho flui maravilhosamente.


"Laços de Sangue" (2010) e "Tempos Modernos" (2010): novelas que contaram com a supervisão de Aguinaldo Silva

SUPER TV E MAIS! - Esse ano estreia no Canal Telemundo uma versão hispânica de "Fina Estampa" (2011). Como foi o seu envolvimento com essa nova versão? Pretende acompanhar a novela?

AGUINALDO SILVA - Tive reuniões com os roteiristas e produtores de "Marido de Alquiler" em Miami. Foi muito prazeroso, principalmente porque o tempo inteiro havia uma limusine com motorista à minha disposição. Discutimos algumas mudanças, que reconheci serem necessárias à adaptação, mas evitei dar maiores pitacos, pois acho que, embora a história seja a mesma, falada em espanhol e ambientada em Miami a  novela virou outra. Não vou acompanhar, mas quero ver pelo menos alguns capítulos para ver como ficou.


"Fina Estampa" (2011) e "Marido de Alquiler" (2013), versão latina da novela

SUPER TV E MAIS! - Já li seu livro "98 Tiros de Audiência" duas vezes e acho a história perfeita para uma adaptação. Você nunca pensou em adaptar o livro para teatro, cinema ou televisão?

AGUINALDO SILVA - Num mundo ideal "98 Tiros de Audiência" daria uma minissérie. Não sei se seria capaz de escrevê-la (já que sou autor do livro, acabaria competindo comigo mesmo, o que é péssimo). E menos ainda sei se alguma emissora de televisão teria coragem de produzi-la, já que o livro retrata os bastidores de uma novela e, portanto, de uma emissora de tevê, de modo bastante fiel, mas nem sempre positivo.


Capas de duas edições do romance "98 Tiros de Audiência"

SUPER TV E MAIS! - E por falar em livros, você tem planos de lançar algum novo romance em breve?

AGUINALDO SILVA - Estou trabalhando há anos num romance cujo personagem principal é João do Rio, figura mitológica da vida carioca nos primeiros trinta anos do século XX... E, ao mesmo tempo, numa continuação de "98 Tiros de Audiência", que começa quando, por conta de uma firula jurídica, é anulado o julgamento de Everardo Lopez (o autor da novela acusado da matar a estrela), ele sai da cadeia e aí... Lá vamos nós para os bastidores da televisão de novo!


"Suave Veneno" (1999) e "Porto dos Milagres" (2001)

SUPER TV E MAIS! - Atualmente você está envolvido com vários projetos e ainda administra o seu site e seu restaurante Locanda Della Mimosa, além de marcar presença constantemente no Twitter. Como consegue conciliar tudo isso?

AGUINALDO SILVA - Você esqueceu o facebook! São três, o meu, o da Locanda e a fan page. Sou um trabalhador compulsivo, não sei fazer outra coisa além de preencher meu dia com trabalho e mais trabalho. Mas reconheço que isso está me matando.


A campeã de audiência "Senhora do Destino" (2004)

SUPER TV E MAIS! - Não existe fórmula para o sucesso, mas na sua opinião o que não pode faltar numa boa telenovela?

AGUINALDO SILVA - Uma trama realmente original. Se você prestar atenção nas novelas vai perceber que a maioria delas é descartável. Ninguém perderia nada se não fossem produzidas. O público vê essas novelas, mas só pela força do hábito. Só de vez em quando aparece uma que realmente mobiliza os telespectadores, e isto sempre acontece por causa da trama original.


Marjorie Estiano foi a protagonista de "Duas Caras" (2007), outro sucesso de Aguinaldo

SUPER TV E MAIS! - Você é um dos autores que mais se preocupa em dar oportunidades para novos roteiristas: já fez duas Master Class, lançou o DVD "A Arte de Escrever Novela" e promoveu um concurso nacional de roteiros. Pretende continuar investindo nisso? Pensa em por exemplo, dar um curso de roteiro pela internet?

AGUINALDO SILVA - Já me foi oferecida esta oportunidade: seria para até mil alunos, imagine, completamente impessoal. Fiquei assustado. Recusei. Gosto de ter meus alunos diante de mim, gosto de praticar com eles o saudável exercício do olho no olho. Uma terceira master class? Farei depois da minha próxima novela, que deve estrear em julho do próximo ano. E também farei o II Concurso Nacional de Roteiros à mesma época. Adoro pescar talentos dentre as centenas de candidatos que me aparecem, acho importante passar para eles tudo que aprendi sobre roteiro de televisão - e ainda estou aprendendo.


Capa do DVD "A Arte de Escrever Novela", uma aula de roteiro com Aguinaldo Silva

SUPER TV E MAIS! - No momento você se divide entre "Super Crô - O Filme", o seriado "Doctor Pri" e a sinopse de sua próxima novela. O que você pode adiantar sobre cada um deles? Quando estreiam?

AGUINALDO SILVA - A novela está prevista para julho de 2014. "Crô - o Filme" estréia em setembro (vi ontem um DVD com as cenas editadas: vai ser um estouro!). Quanto a "Doctor Pri", é como dizia Lara Romero em "Cinquentinha": "quem viver me verá!"



- Clique aqui para ler um post sobre "Tieta";

- Clique aqui para ler um post sobre o livro "98 Tiros de Audiência";

- Clique aqui para ler um post sobre novelas com realismo mágico, a maioria delas, de Aguinaldo Silva.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

TIETA: UMA NOVELA CLÁSSICA!



Sou fã da teledramaturgia brasileira e uma das novelas que eu mais tinha vontade de assistir foi ao ar em 1989, quando eu nem era nascido. Trata-se de "Tieta", novela de Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Morethzon, baseada no romance "Tieta do Agreste", de Jorge Amado. Sempre que via alguma cena da novela no "Vídeo Show" (geralmente a cena do último capítulo, onde Perpétua diz: "eu mato essa quenga com minhas próprias mãos"), minha vontade de assisti-la aumentava ainda mais, pois tinha certeza que era tão ou mais divertida que outras novelas de Aguinaldo Silva, como "A Indomada".

No final do ano passado achei na internet a versão de 2002 exibida em Portugal em 140 capítulos e comecei a assistir. Terminei de ver a novela essa semana e me diverti muito durante esses 140 capítulos.

"Tieta" merece a fama de novela clássica que carrega, não só por ter sido um grande sucesso de audiência, mas por ser uma novela tão bem feita, com personagens ricos, bem construídos e inesquecíveis, sem contar o ótimo elenco. "Tieta" tem o mesmo estilo das outras novelas regionalistas de Aguinaldo Silva: a trama se passa em uma cidadezinha do interior do Nordeste (Santana do Agreste, na Bahia), traz personagens caricatos e cheios de sotaque, situações engraçadas e até meio absurdas e uma pitada de realismo fantástico.

Muitos são os destaques de "Tieta", mas as personagens femininas são as mais fortes e bem definidas, a começar pela exuberante Tieta, vivida brilhantemente por Betty Faria, que volta à cidade de Santana do Agreste vinte anos depois de ter sido expulsa pelo pai, Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos). Ela chega rica e disposta a se vingar de todos que a humilharam. Com ela vem Leonora (Lídia Brondi), sua suposta enteada, mas o que todos ignoram é que Tieta é cafetina em São Paulo e Leonora é apenas uma de suas meninas. A chegada de Tieta agita a vida dos moradores da cidade e ela se envolve com o próprio sobrinho, o seminarista Ricardo (Cássio Gabus Mendes), filho da beata Perpétua (Joana Fomm), invejosa irmã de Tieta que a detesta.

Joana Fomm fez de Perpétua a personagem mais divertida da novela. As cenas de briga entre ela e Tieta são hilárias, assim como as cenas em que Perpétua olha a misteriosa caixa branca. Aguinaldo Silva  disse que não revelou o conteúdo da caixa branca, e nem precisava, pois ao longo da novela são feitas várias insinuações do que pode ter na caixa e quem prestou atenção  não tem dúvidas a respeito do que Perpétua escondia lá dentro... (risos).

Perpétua fingindo-se de cega, uma de suas muitas armações na novela.

Além de Tieta e Perpétua, gostei muito de Carmosina (Arlete Salles), que passou a novela quase toda virgem, Dona Milu (Miriam Pires), que tinha o famoso bordão "mistério"; Elisa (Tássia Camargo), sonhadora irmã de Tieta e Perpétua, e Tonha (Yoná Magalhães), mãe de Elisa e madrasta de Tieta e Perpétua que sofria muito nas mãos do velho Zé Esteves. Também fez sucesso o Coronel Artur da Tapitanga (Ary Fontoura), que explorava várias garotas a quem chamava de "rolinhas" e os "cavalheiros do Apocalipse", os amigos Ascânio (Reginaldo Faria), Osnar (José mayer), Timóteo (Paulo Betti) e Aminthas (Roberto Bomfim), que viviam bebendo juntos. Não dá pra esquecer também a famosa mulher de branco, "assombração" que atacava os homens da cidade de madrugada. Enfim, são muitos personagens marcantes, não dá para falar de todos.

Adorei a novela, gostei muito mesmo. Aproveitei e li também o romance e pude perceber que ele e a novela são muito diferentes. Aguinaldo não teve medo de mexer no livro e criou praticamente uma nova história com várias tramas e personagens inexistentes no romance, mas a sensualidade, a crítica social e o clima irônico de Jorge Amado foram preservados e tornam a novela irresistível. 

"Tieta" foi a primeira novela exibida após o fim da Censura e ousou muito ao mostrar uma mulher (Isadora Ribeiro) totalmente nua na abertura, algo impensável nos dias de hoje. A novela também tem cenas de nudez e diálogos eróticos e de duplo sentido que "chocariam" a atual classificação indicativa. Aguinaldo também abordou o fanatismo religioso através do pastor Hilário (Jorge Dória), que criava uma igreja e explorava os pobres de Santana do Agreste cobrando altos dízimos. Assistindo "Tieta" só percebemos o quanto a TV de hoje em dia ficou careta, pois várias cenas e situações mostradas na novela, jamais seriam permitidas pela atual classificação indicativa, a nova Censura. Houve um grande retrocesso nessa questão.

No entanto, nem tudo é perfeito em "Tieta". Na novela, Tieta vem para se vingar do povo do Agreste, mas no decorrer da história essa vingança vai se diluindo até ser totalmente esquecida. Era uma vingança meio sem sentido e os próprios autores perceberam isso e a tiraram da história, pois Tieta é uma pessoa do bem, sem maldade no coração. Em vez de se vingar, ela faz é ajudar o povo da cidade. As cenas dos cavalheiros do apocalipse também ficam monótonas e cansativas em alguns momentos, pois eles só bebem e falam da vida das pessoas da cidade.

Mas esses pequenos deslizes não chegam a comprometer a qualidade da novela. "Tieta" é uma novela atemporal, não envelhece nunca e é capaz de seduzir em qualquer época. O próprio Aguinaldo Silva a considera seu melhor trabalho na televisão. São novelas como "Tieta" que desmentem a teoria de Aguinaldo de que "novela é um produto tão descartável quanto o jornal de ontem". Não é. Há novela inesquecíveis que marcam para sempre e "Tieta" é uma delas.


sábado, 24 de março de 2012

AS NOVELAS COM REALISMO FANTÁSTICO

Hoje vamos recordar algumas novelas que já utilizaram o  recurso do realismo fantástico, que ficou tão famoso nas décadas de 1970, 80 e 90. Aguinaldo Silva, autor de "Fina Estampa", é um dos que mais usaram isso em suas novelas. Pena que hoje em dia as novelas tenham abandonado um pouco o realismo fantástico, porque o público sempre gostou muito de novelas assim.

1 - O BEM-AMADO (1973)


Dias Gomes foi um dos primeiros autores a usar o realismo fantástico em suas novelas. Em "O Bem-Amado", primeira novela em cores da TV brasileira, o pescador Zelão das Asas (Milton Gonçalves) tinha o sonho de voar e construiu asas para realizar seu desejo. 

2 - SARAMANDAIA (1976)


Outra novela de Dias Gomes cheia de personagens curiosos. O Coronel Zico Rosado (Castro Gonzaga) bota formigas pelo nariz; Marcina (Sonia Braga) provoca incêndios com o calor do corpo; Seu Cazuza (Rafael de Carvalho) quase coloca o coração pela boca (literalmente) quando se emociona; O professor Aristóbulo (Ary Fontoura) vira lobisomem nas noites de sexta-feira e João Gibão (Juca de Oliveira) que é aparentemente corcunda, esconde na verdade um par de asas e sai voando no último capítulo. Uma das cenas mais famosas da novela, é quando Dona Redonda (Wilza Carla) explode de tanto comer. 

3 - ROQUE SANTEIRO (1985)



Mais uma novela de Dias Gomes, dessa vez em parceria com Aguinaldo Silva. um dos personagens mais famosos da novela é o Professor Astromar (Rui Rezende), que virava lobisomem nas noites de lua cheia e assustava todo mundo da pequena cidade de Asa Branca.

4 - TIETA (1989)


Um dos maiores mistérios da novela de Aguinaldo Silva era a identidade da mulher de branco, uma "assombração" que atacava os homens. No final da novela descobriu-se que a assombração estava mais do que viva e era Laura (Cláudia Alencar), fogosa mulher do comandante Dário (Flávio Galvão).

5 - PEDRA SOBRE PEDRA (1992)


Mais uma novela onde Aguinaldo Silva usou muito realismo mágico. O fotógrafo Jorge Tadeu (Fábio Júnior) fez muito sucesso. O personagem já estava morto, mas aparecia para todas as mulheres que comiam uma flor que nascia sobre seu túmulo. Também fez sucesso o personagem Sérgio Cabeleira (Osmar Prado), que tinha muitas dores de cabeça nas noites de lua cheia e o vilão Cândido Alegria (Armando Bogus), que virou pedra no final da novela. 

6 - FERA FERIDA (1993)


Aguinaldo Silva baseou-se no universo ficcional do escritor Lima Barreto para escrever esse grande sucesso. Feliciano Júnior (Edson Celulari) transforma tudo o que toca em ouro, inclusive sua amada Linda Inês (Giulia Gam). Também fez muito sucesso a história de Rubra Rosa (Susana Vieira), que faz tudo ao redor pegar fogo quando vai para a cama com seu amante Demóstenes (José Wilker). 

7 - A INDOMADA (1997)


Uma das últimas novelas onde Aguinaldo Silva usou o realismo fantástico, "A Indomada" apresentou situações inesquecíveis, como a cena em que o delegado Motinha (José de Abreu) cai em um buraco e vai parar no Japão, e a cena onde Emanuel (Selton Mello), vira anjo e voa na cidade. Uma das cenas mais famosas é o final da vilã Maria Altiva (Eva Wilma), que depois de morrer em um incêndio, vira fumaça e assusta os moradores, prometendo que vai voltar. 

Altiva prometeu que voltaria e cumpriu a promessa, pois no final de "Fina Estampa", Tia Íris (também interpretada por Eva Wilma), viaja justamente para Greenville, cidade onde morava Altiva. Antes de viajar para a cidade, Tia Íris olha para a câmera e fala: "Eu não disse que voltava?", e pisca para os telespectadores. Seria muito interessante ver a personagem chegando em Greenville 15 anos depois, mas essa cena fica por conta da imaginação de cada um de nós.



quinta-feira, 22 de março de 2012

DICA DA SEMANA: 98 TIROS DE AUDIÊNCIA, DE AGUINALDO SILVA


A dica de livro da semana é o romance "98 Tiros de Audiência", de Aguinaldo Silva, autor de "Fina Estampa", novela que termina nessa sexta.

Você já imaginou o que aconteceria se a protagonista de uma novela das oito fosse assassinada? pois é sobre isso que Aguinaldo fala nesse livro. O autor escreve sobre um mundo que ele conhece muito bem, o das novelas. Aurora Cosntanti, a protagonista de uma novela das oito que está com audiência ruim, é assassinada misteriosamente e o que não faltam são suspeitos, pois a estrela levava uma vida desregrada e tinha muitos desafetos. O autor da novela, o diretor da emissora, os colegas de elenco... Todos a detestavam e não escondem de ninguém que ficaram felizes com sua morte. 

O livro não é só policial. Aguinaldo narra a história com muito humor e comentários ácidos que fazem rir muito. O romance tem muitos personagens e várias histórias acontecendo ao mesmo tempo e sua estrutura é perfeita para ser transformada em uma série de TV. 

Adorei o livro e já li duas vezes. Um dos maiores atrativos é a forma de narração do romance. Aguinaldo usa diferentes maneiras de contar sua história. O primeiro capítulo é hilário, com a própria Aurora Constanti já morta e caída no chão contando o que lhe aconteceu, de maneira muito bem humorada. Depois tem os depoimentos dos suspeitos, cada um mais divertido que o outro, e os capítulos narrados em terceira pessoa. Em momento algum nos cansamos da história, pois tem sempre alguma coisa acontecendo. O livro parece um filme do qual não conseguimos desgrudar até o fim.

Assim como em suas novelas, Aguinaldo cria nesse livro muitos personagens inesquecíveis, como Haroldina Brunet, o "peniqueiro" de Aurora que é muito parecido com o Crô de "Fina Estampa", Everardo Lopes, o autor da novela que é obcecado por audiência, e a veterana atriz Vânia Fonseca, que detestava Aurora e se comporta como se ainda fosse muito jovem. O autor também critica a falta de ética de alguns jornalistas através da personagem Lílian Caronte, uma repórter que faz qualquer coisa para conseguir um furo de notícia.

Lendo "98 Tiros de Audiência", conhecemos melhor a rotina de um jornal sensacionalista, os bastidores de uma investigação policial e o mundo das estrelas de TV na intimidade. Recomendo esse livro para todos que gostam de uma boa história policial com muito suspense, romance e muito, mas muito humor. 

Leiam e me digam o que acharam!





quarta-feira, 21 de março de 2012

FINA ESTAMPA CUMPRIU SUA MISSÃO


Nessa sexta, 23 de março, a novela "Fina Estampa" de Aguinaldo Silva despede-se do horário das nove depois de 185 capítulos e muitas histórias contadas. Aguinaldo Silva disse que sua novela recuperaria a audiência perdida pelas novelas anteriores e realmente assim foi. "Fina Estampa" deve fechar com média geral de 39 pontos, um abaixo do desejado pelo autor, mas três acima do registrado por "Insensato Coração", "Passione" e "Viver a Vida". Desde o início "Fina Estampa" marcava audiência na casa dos 40 pontos, algo que as outras novelas citadas só alcançaram depois da metade e próximas da reta final. 

Aguinaldo tem muitos motivos para comemorar, pois sua novela sempre foi muito popular, a começar pela história repleta de todos os bons clichês que sempre conquistam o público: a mãe batalhadora que trabalha  duro para sustentar os filhos e é humilhada por um deles, personagens caricatos e estereotipados a começar pela protagonista, e uma vilã surreal que tem um toque de comédia. Núcleos cômicos, violência doméstica, moda, inseminação artificial, barriga de aluguel, funk, MMA...  O autor abordou assuntos do momento de forma bem dosada e tudo isso conquistou o público, especialmente a tão falada classe C.

"Fina Estampa" apresentou muitos casais populares.

Não acompanhei "Fina Estampa" inteira. Desisti depois do capítulo 100, por isso não posso falar da novela com tanta profundidade, mas hoje em dia, mesmo quem  não acompanha uma novela, acaba sabendo tudo o que está acontecendo pelas revistas e sites. Embora seja fã das novelas de Aguinaldo Silva, não gostei muito de "Fina Estampa". No início achei que a história da Griselda (Lília Cabral) seria interessante por causa da discussão de valores que envolveria a personagem após ela ganhar na loteria, mas isso acabou não acontecendo. Outra coisa que me desagradou foi o fato de a história de Griselda e René (Dalton Vigh) ter demorado quase 100 capítulos para começar e quando finalmente eles ficaram juntos, o público se decepcionou, pois os dois não tiveram química nenhuma.

Christiane Torloni interpretou sua vilã Tereza cristina do jeito que a personagem é: louca e caricata. Adoro uma boa vilã e fiquei feliz quando Aguinaldo disse antes da estreia da novela que Tereza Cristina seria pior do que Nazaré, promessa não cumprida, pois Tereza Cristina não chega aos pés da Nazaré em malvadeza, mas a personagem fez bastante sucesso, principalmente pelas cenas com os empregados Crô (Marcello Serrado), Marilda (Kátia Moraes) e Baltazar (Alexandre Nero), que renderam momentos bem divertidos.

Griselda e René não tiveram química...
...já Tereza Cristina e Crô foram os grandes destaques da novela.

Além de Tereza Cristina, Crô, Baltazar e Marilda, outros personagens e atores caíram nas graças do público, como a maravilhosa Eva Wilma, que brilhou no papel da Tia Íris, José Mayer, que finalmente saiu do estigma de galã conquistador e viveu o engraçado Pereirinha, e Carolina Dieckman, que com seu talento, conseguiu fazer o público gostar e torcer por sua personagem, a "piriguete" Teodora.

Concluindo, "Fina Estampa" foi uma novela imperfeita, mas feliz, pois conseguiu cumprir sua missão de elevar a audiência do horário. Em entrevista ao "Roda Viva" da Cultura, Aguinaldo declarou que a telenovela é um produto descartável, pois o público esquece de todas rapidamente. Concordo em parte com ele. Há novelas que realmente são esquecidas assim que terminam, mas não acredito que "Fina Estampa"  está entre elas. A novela foi um grande sucesso e tenho certeza que muitos que gostaram vão lembrar dela com saudades.


"Fina Estampa" sai do ar com sensação de dever cumprido. Vamos torcer para que a próxima novela mantenha os bons índices. Que venha "Avenida Brasil"!